O Atacama não chega de cara. Não é como a Amazônia que no primeiro instante te inunda de rio, chuva e suor.
O deserto te pede solidão e altura. Caminhando entre as formações mais recentes (15 milhões de anos) algo ali parece dizer: esse lugar não é feito pra você. Não te convida, não ressoa dentro da gente assim tão facilmente.
O ar seco engana num primeiro momento, tem um cheiro doce, como canela com lavanda, mas nos dias seguintes a pele começa a engrossar, o nariz sangra. E é aí que o deserto começa a entrar em você. Pela pele.
É preciso subir, caminhar para o alto pra ter a dimensão desse espaço lá de cima. Do alto, onde se vê os vales da Morte e da Lua, a imensidão do lugar escancara a pequenez de qualquer um.
Bruxaria, misticismo e todo tipo de práticas espirituais foram e são realizadas ali até hoje. Claro, mesmo que não queira, o lugar te faz humilde e não deixa dúvida da existência desse algo que ninguém nunca soube explicar, mas que ali é tão evidente.
Nesse ponto da viagem a pergunta: o que eu vim fazer aqui? O pensamento incomoda, mas não se deixa esconder. A relação com a natureza sempre de quem quer arrancar algo pra si. Bem-estar, energia. Colocando a mão sobre um cristal de sal, penso que estou sempre querendo tirar algo pra mim, usar, consumir. A simples presença humana naquele lugar inóspito (não há pernilongos, nenhum inseto, nem formigas) causaria algum dano aquele santuário? Somos oito turistas respirando ali, pisando aquela areia, tocando as paredes de sal. Na cabeça a frase de Nuno Ramos: Fazer piora.
Próximo dali vemos as marcas ridículas de dinamites. As tentativas impossíveis de extração de sal deixam buracos de apenas 10 ou 15cm na pedra. E ao mesmo tempo é irônico saber que se chover forte por cinco dias seguidos (o que nunca acontece, na maioria das vezes a chuva não chega a tocar o chão, se evapora antes disso) todo o lugar simplesmente derreteria, porque é feito basicamente de sal.
Então (como se eu tivesse esse poder e não o deserto) deixo que ele entre ou se esconda à sua própria vontade.
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Um comentário:
Precisamos ficar ouvindo o deserto dentro da gente por muitos dias ainda. Pudera sempre.
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