domingo, 7 de dezembro de 2008

Conserto barato

Fui lá consertar o computador do velho. Já estava sabendo que não ia mais fazer isso na vida, mas era uma chance de me encontrar com o cara. E se ele me ligasse pedindo para eu ir varrer a calçada dele eu tinha ido, só para a gente poder ter mais uma daquelas conversas fundamentais para minha vida.

Uma vez eu fui até lá para apertar o CAPS LOCK e o INSERT, porque ele estava desesperado que as letras do computador só saíam em maiúsculas e iam apagando os textos que ele já tinha escrito. Essas porcarias que acontecem no computador da gente, quando tudo o que a gente precisa é escrever e melhor mesmo é usar caneta e papel que só dão problema quando faltam ou acabam.

Dessa vez era a Internet. Quer dizer, não era nada. Era só mais uma daquelas coisas que acontecem porque ela fica lenta hoje e amanhã melhora... Quiçá a Internet fosse como ele, que vai melhorando sempre...

Falei pra ele do Deserto e desse tempo que alguns homens precisam tirar do convívio com os outros, desses quarenta dias em que você não suporta mais ser humano e precisa ir pro deserto morrer ou encontrar alguma coisa, que seja deus ou outra coisa... Quarenta dias, de quando você sofre de algo contagioso ou incurável, que você precisa ficar isolado de todo mundo, para a criação inteira não ir por água abaixo. E depois dos caras que voltam disso, com uma clareza absurda sobre a condição humana.

Falei pra ele que eu achava que ia lidar com isso quando tivesse quarenta anos, mas que esse deserto me atormenta agora mesmo, cinco anos antes e que eu não podia esperar tanto tempo. Que eu precisava enfrentar isso agora.

E ele me disse: a gente está se encontrando para fazer algo para os próximos doze anos e isso tudo tem muito a ver com isso. Essas são as questões.

Eu adoro esse velho!

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